FOI-SE

Quando o sol surge no horizonte,
Com ele surgem as marcas.
Marcas de um dia que passou, marcas inconfundíveis;
De um amanhecer cujo dia ainda é de se esperar.
Marcas.

Como o sol que se põe ao entardecer
Você partiu.
Nossa história foi um dia.
Pela manhã havia mistério, nada certo,
Até pude sentir a brisa fria,
Começou a se desenrolar,
E ao meio-dia o ápice do calor nos envolveu,
A tarde também se despedia.
Mas na medida que o pôr-do-sol acontecia, você também dava adeus.
Sua partida foi num final de dia, foi como um final de dia,
Frio, sem brilho, porém marcante.

Você partiu!
A vi se despedindo, rumando para novos horizontes, você partiu
Como não posso fazer nada para impedir o fim do dia,
Também não tive o que fazer diante de ti.
Gostaria de ir contigo, mas não posso,
Pois estou aqui no mesmo lugar,
E você, só você partiu
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PÉRIPLO DA VIDA

Figura refletida num espelho
relembra a imagem real,
É para você que eu olho
quando a casa está vazia,

E nas escadas que tão altas e baixas,
nos vãos gélidos de uma peça solitária.
Procuro rememorar você!
Que num curto espaço me fez paixão,
inteligência, adoração,

Ardendo e doendo num fogo que queima,
mas não tarda em se apagar.
Se que estamos em outras férias!
A minha nau já partiu e está no meio do Atlântico,
Aportando numa ilha, abaixo da sombra suave das tamareiras.

Sinto vontade de regressar,
Retomar quem sabe um outro barquinho,
Deixar-me conduzir pelas correntes tépidas
cansadas do mar primaveril.

Se tudo fosse como antes!
Se o efeito ainda durasse!
Mas passou, tudo passou,
e ainda passa correndo, desenfreado e louco,

O idioma da vida, agora se torna letra oculta e palavra morta,
Mas como entender a morte estando ainda vivo?
Como desejar a noite se não passo o meio-dia?

Quando vier o momento, cada instante será uma lágrima,
e cada minuto uma lembrança a mais.
As lembranças servirão como um consolo desolado,
A saudade, hoje mágoa por não ter vivido, tornar-se-á esperança,

Esperar outra vez!
Esperar o nascente, o poente e todo o calor da luz que nos cega conscientes.
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POBRE DIABO

Acho que estou bem,
Pode até não parecer,
Abraço forte os seus braços
Eles estão a me esconder; e eu espero!

A rua está vazia,
Não tem carro e nem condução,
Esperei por todo o dia,
Para tomar você pelas mãos; como eu quero!

Eu sei, eu sei,
Você diz que é muito tarde.
Não posso esquecer.

Mas o que eu faço?
Sem o beijo e sem seus laços
Que me fizeram enlouquecer!
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ILIMITÁVEL

Se fosse, mas não é,
Poderia ser,
Ser o que foi, o que aconteceu,
Para viver o que se pensou,
E entrar onde nunca se imaginou.

Saber que se pode ouvir sons que ecoam pelo espaço afora,
Sentir os sabores mais variados,
As formas mais interessantes, os lugares mais obscuros,
Que seja! Que aconteça!

Que se permita andar,
Vaguear sem compromisso,
Ser um viajante incondicional,
Que explore o mundo desconhecido,
Que conheça o mistério,
Mistério de saber que não há nada limitável

Conhecer as alturas, habitar o ninho dos rouxinóis,
Cantar com eles,
Partilhar da liberdade de se ter asas, usa-las
Viver para que sempre se avance,
Avançar na estrada da satisfação, dos sonhos,
Sonhos estes que tem como barreira o ilimitável.
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LEVANTA-TE

Minha história breve, minha história séria.
Estão caindo às letras, e estamos pisoteando seus frascos.
Quisera eu poder tornar-me rei,
Mas perdi os domínios, os mansos, e tornei-me um vilão sem lei.

Se Freud sempre explicou, ele nunca quis dizer!
Onde está o controle desse homenzinho,
que dentro de outro homem brinca de ser feliz?
As veias se abriram para que o sangue pudesse correr,
E correndo ele pode ganhar o mundo.

Quando todos apostavam numa parada,
apenas se estabeleceu a estrada da qual a morte me livrou.
A plena virtude dos mortos,
é que não encontrarão outra vez o fim de suas vidas.

A morte está batendo, mas eu já saí,
e quando eu chegar ela já terá ido embora.
Não sei para quando o encontro está marcado.Nem precisaria disso.
Viver é estampar cada dia uma alegria num peito cansado.

Talvez até respirar seja ruim, a hiperestesia me contorna o espírito
e faz saltar os nervos adormecidos.
O ar me falta, e me deparo com a busca incessante
por um desejo de encher os pulmões outra vez.
Mas não quero oxigênio!
Basta-me uma busca para a plenitude da alma.
Que devaneio infantil!
Rimas perdidas, canções vencidas, na forma de amor juvenil.
E se tudo fosse perdido, e se a boca fosse escondida,
talvez me fizesse um favor.
Não busquei encontrar,
apenas achei o que será impossível esquecer
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O POETA ESQUECIDO

Glória retomada, dos céus de imensa dor,
Sei que amar lhe desagrada, me empresta o seu calor.
No teu mar aberto infindo, faz nadar meu coração,
Seus sabores e melindres, caminhos de minha perdição.

Glória enluarada, nas ondas latentes do arpoador,
Peito aberto e desgarrado, asfixiado em seu torpor.
Nas remotas cenas de um cortejo, noites brancas de verão,
Durante o dia remanejo os versos mórbidos da canção.

Criam-se lástimas perdidas, envoltas em suor,
Em paixões e em libidos no peito de um homem só,
Amores soltos e esquecidos na escura obsessão,
Fortes alentos envolvidos em amores da estação.

Criados na retina lisa de uma pele sem visão,
Eternizados na resina transparente de uma pedra em oração,
Ali se prostraram os desatentos olhos de um sonhador, que
Talvez estejam para sempre procurando por um senhor

TELA VIVA

A mão está sempre presa,
Pelos olhos que estão fechados.
Perdemos toda nossa leveza,
E os menores estão barrados.

À direita escrevi o que podia,
E o coração ficou atento.
Perdi tudo o que queria,
E me entreguei ao desalento.

Não queira prender-me os dedos,
Não queira soltar-me as mãos,
Desvendarei os seus segredos, e você os meus não.

Passe e diga que me viu,
Pare e diga onde estou.
Perdido em algum rio que você um dia me mostrou.

O PASSAGEIRO COM FUNÇÕES CELESTIAIS

Não diga que não te amei,
Só porque não chorei na tua despedida.
O silêncio foi uma maneira de expressar a dor,
E os olhos secos contrastavam com alma que pranteava sem parar.

As lástimas se deram pelo que não foi,
A dor da perda por algo que não aconteceu.
As tentativas além de frustradas foram destruídas,
Pela vontade de te entregares a solidão.

Não diga que não te amei,
Quando com rispidez abordava teu comportamento,
Foi uma maneira que meu corpo encontrou para aceitar,
Que as vezes o protegido deve proteger na tentativa de ensinar.

Amei-te a cada instante inesperado, quando sozinho aguardava o teu chegar.
Amei-te como um herói rebelado quando ouvia os passos de teu caminhar.
Amei-te pelo que conhecia de ti, e pelo que ouvia sobre ti.
Deleitava-me ao perceber que meu herói florescia na manhã e estava por aparecer.

Agora quando acordo, ancorado em esperanças de um futuro bom,
Percebo que não me verás sendo aquele que planejamos ser.
Sinto que ao partires deixaste aqui um ser em desalento,
E marcas para sempre os sonhos e a vida de teu rebento.

Recordo-me nessa hora, da noite em que te ouvi,
Nos conselhos brandos e intensos de alguém que busca ser útil por aqui,
Mas de que adiantava meus ouvidos servirem como amparo de tua voz,
Se tu não fazias o mesmo quando eu contigo estava a sós?

Volto ainda mais no tempo, quando as telhas deram o nosso sentar,
E me aconselhastes de maneira dura, mas repleta de amor ímpar,
Ali percebi que era crua a vida de sonhos meus,
E as ilusões poderiam levar ao inferno mas não contemplariam os céus.

Não diga que não te amo quando procuro te esquecer,
São apenas retratos de uma natureza assintomática que hesita em emudecer.
E tenta buscar na sombra da tua história uma memória para registrar,
As gargalhadas e as piadas que não poderemos mais compartilhar.