SINO DA CAPELA

Ouvi o sino da capela a badalar.
Já são seis horas,
Já são seis horas.

Chegou a hora de rezar ave Maria
E também salve rainha
Pra nossa senhora ajudar.

A enfrentar
As barreiras dessa vida,
E agradecer pela guarida
Que oxalá nos dá.

Ouvi o sino da capela a badalar.
Já são seis horas,
Já são seis horas.

Todo dia
Pego bem cedo no batente,
Enfrento um mundo descrente,
Repleto de coisas ruins.

E ganho o pão
Com muita garra e suor,
E não tem nada melhor,
Poder voltar para o lar.

Ouvi o sino da capela a badalar.
Já são seis horas,
Já são seis horas.

Salve rainha,
Mãe de deus, nossa senhora,
Que intercede a toda hora
Por quem no mundo é pecador.

Salve oxalá
Com seu escudo e espada.
Quem me guia pela estrada
É Jesus cristo salvador.

*Marcelo Maya – Edmundo de Souza

Não desejes nem sonhes

Não desejes, nem sonhes, alma incauta com a ilusão passageira,
Lembre-se sempre que a ilusão tem o encanto da sereia,
Não desejes nem sonhe com a ilusão,
Pois ela e semelhante às noites aromais de lua cheia que
Seduz e perde, em alto mar, o nauta.

Feliz daquele que os seus atos e anseios modera
Dentro dos dons da vida que o rodeia,
E acha o seu leito macio e a sua mesa farta
E vive na indiferença da fortuna e coisas alheias…

Feliz de quem, da vida para a morte,
Embora pobre, de pobreza triste,
Contenta-se, afinal, com a própria sorte.

Se há ventura no mundo, essa consiste,
Talvez, em suportar, de ânimo forte,
A renúncia de um bem que não existe.

Eliezer Lemos

Longa jornada

Venho dos vendavais distantes,
de noites que se perdem em silêncios profundos,
de invernos sem fim e curtas primaveras,
de tapetes de neve que se estendem com um brilho
e alvura que enlouquecem…

Venho das terras que se abrem com profundos ruídos,
e das casas oscilando, oscilando, oscilando!

Venho da Cordilheira dos Andes
e dos Montes Rochosos,
atravessando vales e margeando rios
cheguei às planícies e subi aos planaltos,
para depois tomar a vastidão dos mares!

Venho das secas avassaladoras do Nordeste,
sob um sol inclemente, mas de um povo tão forte,
que na terra queimada desafia a morte,
até quando o calor e a sequidão os tangem
para bem longe, bem longe…

Trago os clamores de um povo castigado
sem saber por que, nem até quando!

Venho cansado e esquecido de tudo
e passando ao teu lado, ouvirás num sussurro:
"Eu voltei afinal, aqui estou!"

Eliezer Lemos

Madrugadas

É nas madrugadas que meus sentimentos nascem e crescem,
tomam lugar.

Minhas incertezas se tornam algo concreto,
o orvalho lava as tristezas,
a leve brisa trás de longe a força das estrelas.

O cedo em conjunto com a energia da natureza compreendemos o paradoxo da vida,
a verdade do tempo,
a força do amor que liberta de tudo,
e aprendemos a verdade com o silêncio.

Os apelos distorcidos do amor chegavam embotados em meu coração,
faltava-me à razão e a compreensão,
eu era inquieto e vazio, distante da realidade.

Um novo sentimento abril meu coração,
transformando-o num verdadeiro gerador de emoção,
libertando minha alma, tudo em mim renasceu.

Estou vivo novamente!
Tenho amor! Sou puro amor!

Eliezer Lemos

Nasce uma poesia

Quando estou triste e quero lavar minhas magoas,
quando sinto um grande aperto no meu coração,
quando estou feliz e repleto de emoção.

É quando algo dentro de mim começa a germinar,
borbulhar como uma nascente no fundo do rio; não posso conter-me,
tudo acontece como um grande turbilhão em meu cérebro,
assim nascem minhas poesias!

Moinho d’água moendo em silêncio mói o que tem de moer,
e a dor dói sem parar.

Quando se ama profundamente,
todos sons que chegam aos ouvidos, e toda imagem que tocam as retinas,
os sentidos ficam mais aguçados e afinados,
tudo em nossa volta nos inspira a pura poesia.

Ah! Este verdadeiro sentimento o AMOR!

Que tem acompanhado aos anjos e alguns da humanidade.

Eliezer Lemos.

VOU DAR UM BASTA

Muda logo de ideia,
Que o tempo lá fora
Promete pra mim.
Não posso esperar,
Tua boa vontade
Pra me perdoar.

Eu nunca fui santo
E você sabe bem!
Já me conheceu,
Tocando samba
Na mesa de um bar.

Pois é,
Tenho lá meus defeitos,
Mas virtudes também!
Pra quê julgar tanto assim?

Pois bem,
Chegou a hora de decidir.
Se ainda me quer,
Diga logo pra mim.
Não posso mais esperar.

A tristeza me alcançou,
Tou perdendo de viver.
Só que agora eu resolvi,
Vou dar um basta de uma vez.
Olha, foi você quem quis assim!
Depois não se arrependa,
Vai ser muito tarde, parti.
Adeus!

*Marcílio Freitas – Edmundo de Souza