Rio Grande do Sul

Neste mês de Setembro
O Céu fica mais azul,
Toda Natureza grita;
-Viva o Rio Grande do Sul!
Lendas,causos dos galpões,
Ecoam nas amplidões…
E algum vulto do passado
Se achega junto aos fogões!

Jamais se apagará
Pelo Rio Grande meu afeto,
Nem vai sumir aos ventos,
Feitos de Bento e Neto!

(José Alves Camargo)

FALSA CONSIDERAÇÃO

Nunca mais irei escrever
Nenhum verso pra você,
Pois você me traiu.
Você mentiu, usou de má fé!
Só que sou “Pelé”
Quando o assunto é mentira,
E pode crer mulher,
Abristes uma ferida
Dentro do meu peito
Que nunca cicatriza.

Falsa consideração
Tivestes por mim,
Mas agora chegou ao fim
A nossa relação.
Depois da confirmação
Quero esquecer de ti!

vida boa

Na grande euforia do meu agitado cotidiano
De segunda a domingo tudo é sempre igual
Do dia primeiro de janeiro até o final do ano
Com os pés descalço e no corpo pouco pano
Morando e trabalhando sempre na zona rural.

Vivo no meio da natureza e de toda a criação
Assim vou vivendo a vida com toda liberdade
Caçando pescando sempre com os pés no chão
Tenho calo nos pés e na palma da minha mão
Aqui todos vivem assim na maior simplicidade.

Um cigarro de palha uma garrafinha de cachaça
Uma espingarda um estilingue e um facão afiado
Uma arapuca de taquara pra manter viva a caça
Um cachorro companheiro vira lata é a sua raça
Ele vai aonde eu vou e está sempre do meu lado.

Eu não quero outra vida e nem penso em cidade
Aqui tenho o que quero e tudo o que me faz bem
Só vou ao armazém comprar alguma necessidade
Lá em casa o pessoal vive na maior simplicidade
Saúde alegria e disposição eu garanto todos tem.

Todo dia tem carne tem peixes verdura e legume
Água fresquinha que borbulha da fonte sem parar
As frutas madurinhas desperdiçar já virou costume
O porco preso no chiqueiro já aumentou de volume
Come tanta manga que não para mais de engordar.

Esse é meu retrato simples da vida de um sertanejo
Vou vivendo em harmonia com a senhora natureza
Aqui sou feliz, viver assim foi sempre o meu desejo.
Morar em outros lugares nem em sonho eu me vejo
Aqui eu nasci e por aqui eu vou morrer com certeza.

Romance e drama

O caboclo Malaquias e a caboclinha Dorvalina
Escreveram um romance nas linhas da aventura
Com o passar do tempo à senhora vida nos ensina
Que esses atos impensados nos castiga e recrimina
Com açoite do remorso nos enchendo de amargura.

O romance começou com os olhares e os gracejos
A chama do amor acendeu no coração adolescente
O incêndio se propagou através dos doces desejos
A aventura teve inicio depois dos primeiros beijos
Transformando em labaredas aquela paixão ardente.

O pai de Dorvalina um mineiro briguento perigoso
Proibiu aquele namoro empunhando o seu punhal
E prometeu bufando sangrar o pretendente corajoso
Que tencionava se lambuzar naquele fruto saboroso
E tentou naquela história colocar o seu ponto final.

Mas Malaquias determinado em possuir aquela flor
Traçou em sua cabeça um plano cheio de aventura
Preparou a sua charrete com seu cavalo marchador
Naquele dia sem demora levaria embora o seu amor
Pra morar em outras paragens e desfrutar sua doçura.

A Dorvalina apaixonada e sem nenhuma experiência
Aceitou o desafio esperando a tão sonhada felicidade
Começou a caminhar pelos espinhos da sua existência
Deixou no seu passado sua infância sua adolescência
E no coração do velho pai os sentimentos de maldade.

E o tempo foi passando, lentamente o tempo passou.
Malaquias e Dorvalina ainda continuam lado a lado
Há muito tempo para eles o que era doce se acabou
O fogo crepitante daquela louca paixão já se apagou
Hoje estão colhendo frutos do que foi mal planejado.

A mesma charrete que um dia serviu de fuga no passado
Hoje é puxada pelas mãos calejadas do velho Malaquias
Levando a Dorvalina três filhos já crescidos ao seu lado
Pelas ruas da cidade tristonhos sofridos desesperançados
Transportando ferro velho papelão e outras quinquilharias.

Pelas linhas da vida o romance agora em drama continua
Levando os seus personagens para um final imprevisível
Uma família sem esperanças vai perambulando pelas ruas
E o açoite dolorido do remorso em cada mente tumultua
Mas voltar ao passado e modificar já não é mais possível.

A vingança

Esse causo aconteceu lá pros cafundó do sertão
Uma história de vingança bem difícil de acreditar
Lá pras banda da fazenda da onça e toda região
Todo mundo comentava o fato que eu vou narrar.

Vou tentar desenhar o quadro com tinta e pincel
Descrever com detalhes o que aconteceu por lá
No sitio do meu compadre tinha muito cascavel
Uma região pedregosa onde elas faziam o seu lar.

Um dia o compadre recebeu a visita de um parente
Passeando pelo sitio viu duas cobras se acasalando
Ficou muito amedrontado quando viu as serpentes
Com um pedaço de pau sem compaixão foi golpeando.

Uma das cobras se contorceu morreu na mesma hora
A outra cobra se enrolou fitou com ódio seu agressor
Marcou bem a cara do assassino deslizando foi embora
Refugiou numa toca escura sofrendo a sua grande dor.

Assim o tempo foi passando, foi passando lentamente.
Depois de muito tempo daquela data já bem distante
Voltou de novo no sitio do compadre o mesmo parente
Passear de férias poder pescar, sentia feliz e radiante.

A cascavel viúva amargurada já bastante envelhecida
Esperava o momento oportuno rondando a vizinhança
Ficou de tocaia observando o maior tempo da sua vida
Acumulando peçonha para poder realizar sua vingança.

O momento chegou à cascavel não perdeu a oportunidade
Com um bote certeiro abocanhou a perna daquele invasor
Que tirou a vida da sua amada e destruiu a sua felicidade
E lentamente se arrastou feliz por ter vingado o seu amor.

Mentiras de pescador

Certa vez me meti a pescador
e fisguei por azar um candiru
que era forte que só um boi zebu
quando puxa o arado com vigor
Amarrei meu caniço num trator
pra poder puxar ele pra areia
Quem duvida por certo me aperreia
mas a isso até não recrimino
que o peixe apesar de alevino
era muito maior que uma baleia

Uma vez eu estava num rodeio
e montava num touro campeão
De repente surgiu um furacão
que ninguém sabe donde ele veio
Mas passando na arena pelo meio
provocou na platéia um frenesi
Com a fúria do vento eu subi
e o tufão me levou pro alto-mar
Numa ilha deserta eu fui parar
mas do lombo do touro não desci

Uma vez eu deixei um papagaio
com meu primo que é um militar
Como estava aprendendo a falar
só ficava olhando de soslaio
Quando o ano entrou no mês de maio
ele já discursava com fluência
e por causa daquela influência
desse primo que é um Marechal
inda canta o Hino Nacional
perfilado e prestando continência

Vou contar o que me aconteceu
quando dei numa bola um chutão
Eu botei tanta força no tendão
que a bola subiu e não desceu
Lá no sul ela desapareceu
que não dava pra ver numa luneta
De repente avistamos um cometa
e era a bola chegando pelo norte
O efeito do chute foi tão forte
que ela fez toda volta no planeta

Já pesquei bagre, anjo e corvina
sem usar uma rede ou samburá
Com meu barco no rio Paraná
fui até onde estava a usina
Amarrei no meu barco a turbina
e girei para trás a engrenagem
Fiz o rio voltar pela barragem
e os peixes caíram pelo chão
Recolhi tanto peixe e camarão
que não sei calcular a tonelagem