Quero doar meu coração

Quero doar um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração que sem avisar um dia vai parar.

Doa-se um coração que está um pouco usado, meio calejado,
muito machucado e que teima em alimentar sonhos e,
cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu…
Não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…
Um idealista…
Um verdadeiro sonhador…

Doa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e, mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional,
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras…
Que se alimenta de vodka, vinhos e queijos, achando que é o tal.

Doa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e,
às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Doa-se este desequilibrado,
lúcido e doido músculo que arranca lágrimas,
e faz sofrer quem não merece apenas viver de promessas e sacrifícios…
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o
tempo, fugindo das emoções mais gratificantes.

Doa-se um coração inocente que se mostra sem armaduras e deixa febril de
paixão o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá de seu usuário um suspiro de
alivio pelo descanso que lhe dará… Justo e necessário.

Doa-se um coração que constrange o corpo que pensa que o domina,
mas é certo que pedirá clemência quando ele resolver parar de um momento para outro não
lhe dando tempo sequer de se arrepender de seus erros mais crassos.

Doa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de
juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.

Doa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado,
principalmente a maridos, noivos, namorados ou amantes possessivos.
Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado,
provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por
não querer perder o estilo.

Doa-se um velho coração inconveniente que convence seu usuário a publicar
seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Eliezer Lemos

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