O Som de uma lagrima

Lágrima, pura lágrima…
Ela escorregou, juntamente dela vieram outras
Tristeza, pânico, obsessão…
Lágrimas deslizando pela a pele
descuidada e queimada do sol
Lágrimas que jorram como uma cachoeira,
Com águas límpidas e verdadeiras
Sonhos esquecidos, tudo acabado
Todos quietos, todos concentrados a espera de uma lágrima
Pois só assim poderemos saber o som que fazem as
lágrimas e desvendar assim seus mistérios
Lágrima, pura lágrima…
Gosto salgado lembrando o imenso mar
Com a beleza de um pôr do sol refletido nas águas
E a pureza de uma singela flor de maracujá
Palavras podem explicar a pureza de uma lágrima,
Mas ninguém jamais ouviu o som que elas fazem ao
deslizarem pelos os olhos e em seguida escorregarem pela a face.
Ninguém jamais irá ouvi-las, apenas senti-las
E por onde essas lágrimas escorregarem deixarão
suas marcas e seus mistérios…
E acaso um dia você conseguir escutar o som que elas produzem,
saberá então que você já não é mais você,
e sim uma lágrima!

Eliezer Lemos

O pobre louco

No silencio da noite o louco escuta
os imóveis movimentos do cosmo
onde gravita a imensa máquina celeste.
Seu cérebro aflito morre o tempo de estrelas e planetas,
filtra luzes negras, e os finíssimos sinais das galáxias
uivando no espaço a grande solidão da sua dor.
Inútil negá-lo, convidá-lo ao diálogo e a razão:
só ele, o louco, é lúcido e tudo percebe
além do pensamento e das palavras.
De que vale dizer o que ninguém mais sente?
Na mudez o louco é a origem da vida:
os elementos são simples, sem idéias, nada explicam,
como a rocha se deixa estar na terra
e é ela mesma ainda mais só.
O louco ignora o sentido do corpo,
apenas a sombra parada no pátio
se move intimamente à inclinação do sol.
De que duvidar, a quem mentir,
se ele é o astro-rei que esplende e sorrir no muro de cal?
A sombra de Deus no pátio do hospício
há de durar eterna.
Por isso o louco há muito se calou.

Eliezer Lemos

Palavras ao Mar

Não partirei sem dizer-te, Mar.
Como te sinto próximo de minha alma!

És para mim um ser, um amor, uma presença, uma atração,
um abismo, um estímulo para mim.

Mas és também um pouso,
um regaço, um jardim, um seio, um leito, um refúgio,
onde às vezes desejo esconder-me,
conter-me, encontrar-me, aplacar-me.

Agora vejo-te, Mar, de longe, e sinto desejos de correr ao teu encontro,
de vir brincar com os teus cabelos e colher flores nos teus campos.
Vejo-te tão doce nesta noite de verão!
Ouço ao longe tua voz chamar-me, tua voz cantando,
mas não percebo o que dizes.

As tuas palavras não as distingo, eu sinto que me chamas,
que tuas mãos se agitam na minha direção.

Sou um inseto de asas molhadas na orla das tuas águas, e nada mais.

Sou um inocente diante de ti, que conheces todos os segredos.

Sou um recém-vindo a este mundo, e tu és antigo, remoto, sábio.

Assististe a tudo neste planeta;
os teus olhos verdes se espantaram quando a vida surgiu,
se manifestou e veio crescendo e caminhando sobre o teu dorso.

Espero de ti, Mar, a minha eternidade, volta à infância,

A surpresa de que cheguem dos teus ínvios caminhos,
as raparigas de tranças,
que virão dançar para os meus olhos exaustos.

Espero de ti as flores mais belas.

És terrível e bruto,
mas às vezes amo-te como se fosses o meu berço perdido,
e sonho que poderei adormecer um dia, em ti, quieto.

Olhando as estrelas, purificado pelo teu sopro,
o Mar que o vento quente estremece neste momento,
Mar do mundo, filho do mundo,
Mar materno que cabes todo no meu peito,
como um grande amor!

Eliezer Lemos

Quero doar meu coração

Quero doar um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração que sem avisar um dia vai parar.

Doa-se um coração que está um pouco usado, meio calejado,
muito machucado e que teima em alimentar sonhos e,
cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu…
Não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…
Um idealista…
Um verdadeiro sonhador…

Doa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e, mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional,
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras…
Que se alimenta de vodka, vinhos e queijos, achando que é o tal.

Doa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e,
às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Doa-se este desequilibrado,
lúcido e doido músculo que arranca lágrimas,
e faz sofrer quem não merece apenas viver de promessas e sacrifícios…
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o
tempo, fugindo das emoções mais gratificantes.

Doa-se um coração inocente que se mostra sem armaduras e deixa febril de
paixão o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá de seu usuário um suspiro de
alivio pelo descanso que lhe dará… Justo e necessário.

Doa-se um coração que constrange o corpo que pensa que o domina,
mas é certo que pedirá clemência quando ele resolver parar de um momento para outro não
lhe dando tempo sequer de se arrepender de seus erros mais crassos.

Doa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de
juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.

Doa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado,
principalmente a maridos, noivos, namorados ou amantes possessivos.
Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado,
provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por
não querer perder o estilo.

Doa-se um velho coração inconveniente que convence seu usuário a publicar
seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Eliezer Lemos

A ilusão do amor

Por que me iludo, Deus? Por quê?
Por que teimo em sonhar com a felicidade?
Será que viverei na ilusão de sempre,
e para sempre fugindo da verdade?
Não sou amado e nem jamais serei,
porém o meu amor sempre te ofertei.

Gratuitamente distribuí felicidade,
recebi, em troca, apenas crueldade…
Nos meus anseios sempre fui frustrado,
os meus desejos, nunca os realizei…
Por tanto desejar ser muito amado,
que propriamente a mim ignorei.
Pensei em… em tudo que me cerca,
a todos dei a minha mão amiga…
Mas tu, quando de mim enfim te acercas,
me abandonas, talvez por intrigas…
Dedicação sempre te dou e não recebo;
recebo, em troca, total indiferença, e vou amando…
amando… e nem percebo
que o meu amor possui uma força imensa.
Tu me magoas, mas nem te apercebes…
E magoado eu sigo caminhando por uma estrada
onde só recebo pedradas…
Mas eu continuo amando!…
Não sei viver sem dar-te o meu amor,
sem dedicar-te todo o meu…
E, indiferente, segues sem supor que,
por dentro, pouco a pouco eu me arrebento…

Eliezer Lemos

OUTRA CANÇÃO

Vivo só,
Sem ter ninguém pra mim.
Vivo sim,
Sem ter com quem dividir
O meu lar.

Vivo só!
Será que é a minha sina,
Pois aquela menina
Que escolhi,
Não me quis?

Na solidão
Das madrugadas frias,
Eu grito em agonia
A falta de um amor.

Porque razão,
Toda esta dor amargo?
Ante tanta tristeza, falo…
Dela em outra canção!