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Quisera
Quisera eu voltar aos tempos de criança
quando a canção de ninar ainda existia,
quando os cabelos em cachos
amarrados com fitas
aos ombros pendiam,
quando a esperança era mais verde,
o céu mais azul,
as estrelas mais douradas,
o cavalo de São Jorge mais valente
a brincadeira de esconde-esconde
animava a meninada do bairro,
o chicotinho queimado era o preferido
porque a prenda era o aperto de mão
ou o beijo na testa
dado de longe,
fugindo dos olhos da mamãe ou da vovó.
Quisera eu retornar ao tempo
em que o sonho com a valsa dos 15 anos
era o mais dourado de todos,
quando os acordes de um violão
acordava a namorada e
ela quase chorando
abria a janela para contemplar com surpresa
a rosa ali deixada
pelo primeiro amor da sua vida,
pelo príncipe que chegara
em seu cavalo alado
pronto para derrubar as muralhas e tropeços
ou tudo que os pudesse separar.
Quisera eu voltar ao tempo
dos sonhos de noiva,
da aliança brilhando no dedo,
da alegria de mostrar a todos
o enxoval tão singelo
como sua alma
tão puro como sua inocência
tão belo como o seu sonho
prestes a realizar.
Quisera eu voltar aos tempos de felicidade
Se é que existe, se é que é real
se é que conseguimos nos realizar
pelo menos como humanos
pelo menos como irmãos.
Tanta ternura, tanto calor
tantos olhares, tantos momentos.
Mãos dadas, ombro a ombro
sempre ao lado
mas sem nunca haver amor.
Quisera eu nunca vê-lo triste
para que meus olhos não nublem,
para que minha alma não sofra,
que seu sorriso sempre esteja presente
contagiando o sol, a lua e
tudo mais que pudesse ver.
Como era lindo, como era sensual.
Quisera eu poder ainda abrir
a janela do meu quarto e
dela contemplar as flores
com o olhar límpido da criança,
com a pureza da menina,
com a inocência do animal
e poder sentir o seu perfume
puro e cristalino,
sem mistura, sem receio
e com ternura.
Quisera eu poder estar ao seu lado agora
alisando-lhe os cabelos,
acariciando-lhe o rosto
dizendo-lhe baixinho,
bem nos meus ouvidos
a grandeza desse amor
a ternura da menina
o ardor da adolescente
a paixão dessa mulher.
Quisera eu poder andar com você
de mãos dadas,
pelos jardins da vida
pelas praias ensolaradas,
curtindo a areia sob os pés,
correr atrás do outro
como se fôssemos crianças,
e de braços abertos, sedentos e carentes
terminar essa corrida louca
em um braço, num longo beijo
como se ainda existisse amor.
Quisera eu já estar velhinha
sentada num banco da praça
respirando o ar puro das plantas
tão verdes pela chegada da primavera,
entretida com um livro de
romance antigo,
a bengala ali do lado,
os óculos já gastos saindo sempre do lugar,
os olhos sempre marejados
pelas marcas do sofrer
do tanto chorar,
as rugas já incontáveis
as mãos tão trêmulas
o corpo arqueado
sem quase poder se equilibrar
e... de repente, quase de súbito
levantar os olhos
e deparar com você
nas mesmas condições,
na minha frente.
Olhar terno
sorriso entreaberto,
dizendo com certo esforço
um tanto cansado,
"ainda não te esqueci"!
Autoria: Saryta
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