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Em busca de um abrigo:
Me tiraram lá do campo
E me toquei prá cidade
É dura a realidade
Prá quem vive de agregado
Eu nunca fui baseado
Do contrário, bem disposto
E trago marcas no rosto
Que avalizam meu passado
Não sei o que aconteceu
Não me deram explicação
Talvez fosse precaução
Medo, sei lá o que deu
Só sei que fiquei no breu
Sem rumo, perdi o valor
E num medonho rancor
Mesclado com amargura
Eu que não tenho cultura
Me botei no corredor
Dos golpes que a vida dá
Foi o meu maior fracasso
Pouco pilas na guaiaca
Com a filharada nos braços
Só levei o meu Picasso
Que foi presente do Velho
Era sério, índio Bueno
Me tratava como gente
Mas morreu, infelizmente
Me deixando no sereno
A carreta eu mesmo fiz
Os bois mansos negociei
E foi nela que viajei
Indo em busca de um abrigo
Até parece castigo
Coisa feita, não sei bem
Eu que não tenho inimigo
E o mal, nunca desejei
Até por mim não me importo
Agüento firme o repuxo
Tenho pena das crianças
Que me olham com esperança
Sem nada dentro do bucho
E isso é o que mais me dói
Preferia que chorassem
Que não me dessem confiança
Afinal só estão no Mundo
Pela minha ignorância
A mulher não disse nada
Sua alegria se foi
Olhava firme pro bois
Lá do campo até a cidade
E quando vinha a saudade
Molhando a face cansada
Deixava pela estrada
Rastros de contrariedade
Na cidade não é fácil
Prá quem nunca teve estudo
Eu tenho feito de tudo
Junto lixo, varro rua
Faxina faz a xirua
Prá botar bóia na mesa
Mesmo assim falta a certeza
De comermos todo o dia
Mas me sobra valentia
Mesmo rondado a pobreza
Esses dias lá na estrada
Vi o filho do ex-patrão
Que me olhou de refilão
Fez que não me conheceu
E ele era amigo meu
Eu ajudei a criar
Como é que pode mudar
Quem eu carreguei nos braços
Fui sinuelo de seus passos
Prá agora me desprezar
Eu não ia pedir nada
Não quero o que não é meu
Só bastava um aceno seu
Que pedisse como estou
Aquilo sim me magoou
Como é que pode um vivente
Querer ser mais do que a gente
Se vai pro lugar que eu vou
Mas eu não baixo a cabeça
Sigo em frente, não me entrego
Nem tampouco me arrenego
Se as coisas não andam bem
Eu tenho quem me quer bem
E isso é o mais importante
Pois quem é que me garante
Que um dia não fui algoz
Tranço os dedos, baixo a voz
E assim no más sigo adiante
Autoria: João Sasso
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