Sono Inocente
Data Postagem 16/11/2011, Autoria: Victor MedeirosDeram oito horas no grande relógio do Largo, que ficava próximo ao semáforo, entre duas ruas: a que faz esquina com a farmácia e com a loja de jóias.
Estavam os dois de mãos dadas e olhos a fitarem-se. Nenhuma palavra fora dita nos últimos trinta segundos, apenas os olhares tomaram partido do que sufocava o peito e, com dó deste, expressavam como podiam o que lutava para gritar coração.
Ela então olha para ele forçando um sorriso positivo e pergunta:
- Quando voltas?
- Não sei.
- Temes?
- Não há o que temer. A vida é assim mesmo.
Mais dez minutos no relógio do Largo. Mais uma tentativa de contato:
- Quando ele descobrir você vai precisar de alicerce em seus argumentos.
- Ele só vai descobrir se você abrir a boca pra dizer o que não deve.
- Agora é tarde para agir dessa forma. O que foi feito já foi feito.
As mentes então começam a violentarem-se com o peso da responsabilidade e a sucumbir à dor do remorso.
As pessoas passam de um lado para o outro, sem destino, apenas cuidando de suas próprias vidas. Os dois ali eram somente mais um casal como tantos outros conversando sobre assuntos pessoais. Nada era singular naquela cena. O vento gelado, emissário das chuvas de Dezembro, soprava indiferente à situação. Ela, apesar da dor na pele causada pelo frio e da dor na alma, em momento algum se aqueceu nele, como fizera outrora.
Em sua convicção, ele acreditava estar no direito de partir sem deixar rastro algum, afinal não era culpa dele o ocorrido. Em seu interior toda aquela responsabilidade podia ser facilmente abdicada, afinal, até provarem o contrário ele nada tinha a ver com aquilo.
Ela por outro lado corroia-se de arrependimento por ter traído seu próprio corpo e seu próprio espírito, por ter tomado uma curva perigosa que não sabia para que lugar a levaria.
O rapaz agora, com olhos centrados nos vendedores ambulantes e nos cães vadios diz com voz nervosa:
- Ouve bem: este é nosso segredo e ninguém há de tomar partido por ele. Se alguém tomar conhecimento do que fizemos e nosso ato chegar a ouvidos errados todo o sofrimento resultante cairá somente sobre nós, principalmente se o mais interessado na questão teimar em meter o bedelho onde não é chamado.
- Por quanto tempo acreditas tu que poderemos nos esconder? Mais dia, menos dias a verdade há de vir à tona.
- Deixa o depois pra depois. Agora o importante é começarmos a erguer nosso futuro com as ferramentas que temos. Não é responsabilidade de ninguém resolver nossos problemas.
- E a partir de agora quem é que vai cuidar de nós?
- No momento que decidimos o que decidimos abrimos mão de qualquer cuidado que tínhamos. A partir de agora nós iremos segurar nos ombros o peso do mundo. Foi nossa escolha e não podemos nos arrepender agora que já erramos.
Deram oito e meia no grande relógio. Chegou a condução esperada. O rapaz despede-se da moça sem mais nada dizer senão adeus e embarca rumo ao seu destino.
Dez anos depois, numa rua próxima ao Largo, os dois se reencontram.
Dez anos sem se ver, dez anos sem trocar correspondência ou telefonema. Uma década de experiência não apagou da memória o passado. Em uma lanchonete, mostrando cada um sua aliança e fotos das respectivas famílias, começaram a, soturnamente, lembrar aos poucos os últimos dias que se comunicaram. Ela pergunta:
- Deu certo no emprego?
- Deu sim. Em seis meses fui promovido para outro setor e com mais três já era responsável por todo um segmento. Lá fiquei por muitos anos. Estou agora lutando por uma promoção para diretor regional.
Ela suspira.
Ele, meio que sem jeito de perguntar, finalmente coloca pra fora o que tanto o angustia:
- E ....
- E o quê?
- E ele?
- Nasceu morto.
- Verdade?
- Sim.
- Parecia-se comigo?
- Nem um pouco.
- E você?
- Eu?
- Sim, como ficou depois de tudo ...?
- Eu fui expulsa de casa no terceiro mês. Meu pai não aceitou bem a idéia como você disse que não aceitaria. Morei na rua por mais ou menos duas semanas até que uma conhecida minha me deu abrigo por um tempo. Ela ajudou-me a conseguir emprego em uma loja de jóias que fica muito perto do ponto de ônibus do Largo. Lá, todo dia e toda noite eu esperava você voltar naquele ônibus que você se foi. Também fui promovida e, depois do desastre, comecei a investir ainda mais em minha carreira. Hoje sou o braço direito da dona da rede e estou realizada em minha vida profissional.
Abismado de remorso, ele se permite uma última pergunta:
- Há algo que posso fazer por você?
- Sim, suba naquele mesmo ônibus e não me procure nunca mais.
Eles despedem-se. O rapaz saíra com a alma negra. Parte de seu ser perdeu-se completamente naquela revelação.
Ao sair de lá, ela volta pra casa. Abre a porta devagar e sobe sem pressa os degraus da escada. O filho está deitado, dormindo com a televisão ligada em um canal infantil.
A moça, que agora é mulher, deita ao lado dele. Admira seu sono inocente de criança. Lembra-se agora de toda a dificuldade que teve em conquistar tudo o que hoje tinha. Adormece após chorar de felicidade.





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