Noite Singular
Data Postagem 21/11/2011, Autoria: Victor MedeirosO abrir da porta foi tranquilo dessa vez. Ao ouvi-lo, a esposa angustiada por ainda não ter posto a mesa do jantar apressou-se, prevendo a habitual surra que levaria graças ao seu atraso. Em posição de defesa, surpreendeu-se com a entrada de um homem diferente, bem humorado e alegre. Tirou-lhe das mãos as panelas e pratos e colocou-os sorrindo na mesa. Despiu-a do avental, limpou as manchas de cozinha de sua roupa e girou-a como em um passo de dança.
O filho mais velho, também surpreso, retirou-se da sala com despeito e amargura causada por reprovação, avaliando a atitude do pai como falsa e interesseira. O irmão, embora compartilhasse a opinião com o outro, animou-se ao ver o semblante da mãe que sorria, ainda com ar amedrontado, dos gracejos.
O pai subiu o lance de escada e acordou a caçula. Trouxe-a para a mesa, colocou-a no colo e chamou a família para o sagrado momento da refeição. Todos compareceram, exceto o mais velho que estava à porta, furioso e confuso, sem entender a súbita quebra de rotina em que o pai não os humilhou nem agrediu sua moral.
À mesa, o homem falou bastante sobre seu dia e questionou o de seus familiares. Tomou a lição das crianças, indagou à companheira as necessidades urgentes da casa e debateu com ela as melhores soluções para as mesmas. Ajudou-a com a louça e depois de terminar, sentou-se com a família em frente à televisão para encerrar a noite.
Entrou neste momento o mais velho. Observou a cena da reunião e, ainda desconfiado, aproximou-se do grupo para tentar contato. Foi muito bem recebido e, durante o sono dos irmãos, teve uma séria conversa com os pais sobre o mundo adulto e as vivências que teria daquela fase em diante.
Todos foram dormir. A esposa acreditava ser uma espécie de sonho e refletiu durante a noite, deitada ao lado do marido, a causa do humor excepcional vivenciado na ocasião.
Amanheceu o dia e ele saiu novamente, rumo ao trabalho.
Ao anoitecer, a porta se abriu mais uma vez brusca e enraivecidamente. Pálida, ela presenciou a abominável criatura com quem casara-se. Embora não estivesse fora do horário, pôs-se em posição de defesa, a mesma de sempre, certa de como tudo iria acabar, igual a tantas outras vezes.
Ele aproximava-se com olhos flamejantes.





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